quinta-feira, 6 de março de 2014

* Civilização capitalista é um trem suicida rumo ao abismo

Em entrevista, pensador marxista discorre sobre a crítica ao capitalismo de Walter Benjamin e sua relação com a atualidade
“O capitalismo acaba com o que é encantamento, dissolvendo tudo em prol da mercadoria, do dinheiro, do mercado, das coisas prosaicas”, diz Löwy (Foto: João Alexandre Peschanski)
Por Gabriel Fabri
Considerado um dos maiores pesquisadores em Karl Marx e Walter Benjamin, entre outros autores, Michael Löwy esteve no Brasil para divulgar o seu novo livro, “O Capitalismo como Religião” (Boitempo Editorial), que reúne escritos de Benjamin, das mais variadas fases de sua carreira. Walter Benjamin foi um dos mais importantes teóricos da Escola de Frankfurt.
 Em entrevista à Revista Fórum, Löwy explica a relação entre capitalismo e religião na obra de Walter Benjamin, e também discorre sobre questões como o sistema capitalista hoje e o pensamento do romantismo e do surrealismo. Confira:
Para Löwy, a marcha para o abismo continua, mas tem uma forma diferente. Na época de Benjamin, era a marcha à guerra, hoje em dia é a corrida para a catástrofe ecológica (Foto: Artur Renzo)
Fórum – Como a questão do capitalismo como religião está inserida na obra do Benjamin? Ela a permeia? De que maneira?
Michael Löwy
 – Eu não diria que ela permeia a obra do Benjamin. “O Capitalismo como Religião” é um texto de um momento muito específico e não é uma questão que ele voltou a discutir como tal. Em 1921, quando ele o escreveu, ele ainda não era marxista. É um escrito mais de inspiração romântico-libertária, eu diria. Quando ele descobre o marxismo, ele vai retomar a questão, mas sobre um ponto de vista um pouco diferente, quando ele usa o conceito do fetichismo da mercadoria de Marx. Esse conceito tem uma dimensão religiosa, por que o fetichismo é uma forma de culto, de idolatria. Ele se refere à Bolsa de Paris, por exemplo, como “templo da mercadoria”. E usa expressões relacionadas com o tema do fetichismo que, metaforicamente, tem a ver com a religião.
Fórum – E qual seria o tema que atravessa toda obra de Benjamin?
Michael Löwy
 – O tema que atravessa toda sua obra é a crítica ao capitalismo. É uma crítica feroz, que não é necessariamente marxista, no começo não é. Não só ao capitalismo no sentido econômico, mas como civilização – moderna, industrial, capitalista, burguesa. É uma crítica de inspiração romântica a essa civilização. Esse é o fio condutor dessa coletânea de textos.
Fórum – Na orelha do livro, Maria Rita Kehl afirma que a “unidade dos textos” selecionados se explica a partir do ensaio-título escolhido para a coletânia. Como você pensa essa relação?
Michael Löwy
 – Segundo a Maria Rita Kehl, o texto ilumina o sentido da melancolia benjaminiana. Até certo ponto, eu diria que sim. Esse texto fala que o capitalismo conduz ao desespero. Tal desespero suscita a melancolia, o sentimento de que não há saída, de que nada se pode fazer. Eu acho que a melancolia de Benjamin tem a ver com esse desespero, mas não é uma melancolia resignada, ela é ativa. Por exemplo, ele tem um ensaio de 1929 sobre surrealismo que fala da importância do pessimismo para a revolução. Ele diz que o capitalismo pretende nos fechar numa espécie de jaula de ferro, mas que temos que procurar uma saída e, assim, ele analisa várias hipóteses de como sair. Então é evidente nessa busca que Benjamin não se dá por satisfeito com o desespero do capitalismo.
Fórum – O texto “o capitalismo como religião” é uma feroz crítica a esse sistema. O que torna esse texto atual?
Michael Löwy –
 Muito do que o Benjamin diz corresponde de maneira surpreendente ao funcionamento atual do capitalismo. Realmente há algo de um culto religioso na maneira como os representantes do sistema capitalista, seus economistas e os seus meios de comunicação se referem à propriedade privada, ao mercado, à bolsa… Mas talvez a coisa mais surpreendente e atual é quando Benjamin fala da ambivalência, na língua alemã, do conceito de Schuld, que é ao mesmo tempo “dívida” e “culpa”. Ele acha que essa coincidência é diabólica e que isso está no coração da religião capitalista: a dívida é uma culpa, quem está endividado é culpado. O capitalista está sempre em dívida com o seu capital, o pobre está sempre em dívida porque não tem dinheiro, então todos somos endividados, todos somos culpados. Hoje em dia nós vemos na Europa um discurso teológico de que todos os países que estão em crise estão por culpa deles, porque não trabalham, são preguiçosos, esbanjaram dinheiro. Todo um discurso moralista querendo culpabilizar esses países, quando sabemos que a dívida resulta da lógica do próprio sistema capitalista, de sua irracionalidade profunda.
Fórum – Faz sentido pensar numa adoração ao capitalismo agora que ele vem sendo tão contestado com a crise econômica?
Michael Löwy
 – A crise tremenda do capitalismo atual, a maior sem dúvida depois de 1929, intensifica ao máximo o desespero provocado pela religião capitalista, a tal grau que o desespero se transforma em alguma outra coisa. As pessoas se suicidam ou buscam algum bode expiatório, como os imigrantes, por exemplo. Todavia, para alguns, o desespero leva a colocar em questão a religião capitalista, e mesmo a rejeitá-la. Então, ele pode levar à raiva e à indignação, sendo essa última o traço comum de todos os movimentos de protesto que surgiram, da Primavera Árabe às jornadas de junho no Brasil. Implicitamente ou explicitamente, encontramos também uma rejeição à religião capitalista. Mas em suma, esses movimentos são o desespero transformado em raiva e indignação, o que é, evidentemente, um grande passo à frente.
Fórum – Benjamin pensou a modernidade do século XIX-XX. Quais aspectos dessa modernidade continuam até hoje?
Michael Löwy
 – A modernidade capitalista está baseada no princípio da mudança permanente, ela nunca é a mesma, mudando constantemente, de um minuto para o outro. Tudo muda, mas, como diria o famoso romance “O Gattopardo”, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, tudo muda para ficar a mesma coisa: a matriz econômica, social, política e cultural do sistema permanece. A civilização capitalista-industrial, com suas características analisadas por Marx e retomadas por Walter Benjamin, continua igual.
Fórum – Quais são as principais críticas de Benjamin ao mundo “civilizado” do século XX?
Michael Löwy
 – Ele aponta para as potencialidades destrutoras da civilização capitalista do século XX. Então rejeita a ideia de progresso, acha uma mistificação a ideia de que o capitalismo nesse século é mais civilizado ou mais humano do que no passado. Ele tem essa percepção de que o progresso capitalista vai acumulando catástrofes e que o fascismo é algo que corresponde perfeitamente a uma dinâmica possível do sistema: o fascismo e o nazismo são vistos como a expressão mais dramática da barbárie potencial do capitalismo. Assim, Benjamin alerta para os perigos de catástrofe que estão no bojo do sistema capitalista. Um dos elementos apontados é o uso da tecnologia científica mais avançada para a guerra. O texto “As armas do Futuro”, presente na antologia, fala sobre a arma química, por exemplo. Embora Benjamin fosse o mais pessimista e o mais lúcido sobre os perigos da tecnologia a serviço da guerra, nem ele conseguiu prever a arma atômica.
Fórum – O senhor afirma que a crítica de Benjamin é de inspiração romântica. Como se dá essa relação do Benjamin com o romantismo?
Michael Löwy
 – Nos manuais, se apresenta o romantismo como uma escola literária do século XIX. É muito mais do que isso, pois está presente na poesia, na arte, na música, na teoria política, na religião, na econômia. O romantismo é uma visão do mundo, que atravessa todos os campos da cultura. Partindo de um texto de Marx, o romantismo é definido como uma crítica da civilização capitalista em nome do passado pré-capitalista. Acho que é exatamente isso, o romantismo é um protesto cultural contra a civilização moderna-industrial em nome de um passado idealizado. Ele surge no século XIII e existe até o século XXI, o que Marx já tinha previsto, dizendo que, enquanto existir o capitalismo, o romantismo será a sua sombra.
O romantismo possui duas vertentes principais. Uma quer restaurar o passado, então ela é conservadora, reacionária. A outra quer uma volta pelo passado, em direção a um futuro utópico, revolucionário. Nessa segunda vertente figura o Jean-Jacques Rousseau, pois ele fala do selvagem como livre, em contraponto ao homem da sociedade moderna que é um escravo, mas o teórico não quer voltar a viver na floresta, e sim restaurar essa liberdade perdida numa sociedade futura, democrática. Essa dialética romântica entre passado e futuro já está em Rousseau e continua ao longo dos séculos XIX, nos socialistas utópicos, e XX, nos surrealistas, entre outras correntes do pensamento. O Walter Benjamin é um exemplo dessa atitude romântico-revolucionária. Ele vai utilizar a teologia e a religião que vem do passado como arma para uma luta revolucionária contra uma civilização burguesa.
Fórum – Como a visão romântica permanece até hoje?
Michael Löwy
 – Você vê o romantismo reacionário nas pessoas que querem restaurar alguns valores aristocráticos e tradicionalismos, como, por exemplo, as correntes religiosas fundamentalistas, que querem resgatar a religião como era no passado. Esse fundamentalismo, todavia, nem sempre é critico do capitalismo, então, nesse caso, não é romantismo, e sim uma variante da religião capitalista. Mas existem formas religiosas retrógradas que rejeitam a civilização moderna, então elas têm essa forma de protesto reacionário.
Há também as formas românticas utópicas ou revolucionárias. No campo religioso, por exemplo, a Teologia da Libertação é crítica à civilização capitalista e se refere a alguns valores do passado, a uma imagem idealizada do cristianismo nas origens e à ideia de que existem tradições comunitárias populares que o capitalismo vai destruindo, mas que devem ser resgatadas. Então eles querem restaurar o espírito comunitário que existiu no passado, mas sem voltar a ele, criando algo novo como, por exemplo, a comunidade de base, que incorpora aspectos da modernidade, entre eles a adesão individual das pessoas.
Fórum – De que maneira as reflexões do romantismo se prolongam até o surrealismo?
Michael Löwy
 – Um dos elementos do protesto romântico contra a civilização é aquilo que o Max Weber chama de “desencantamento do mundo”. O capitalismo acaba com o que é encantamento, dissolvendo tudo em prol da mercadoria, do dinheiro, do mercado, das coisas prosaicas. O romantismo protesta contra isso, sendo uma tentativa de reencantamento do mundo. No caso do surrealismo, essa tentativa tem uma forma revolucionária, pois eles querem reencantar o mundo por meio da poesia, do sonho, do acaso e da utopia, e não por meio da restauração do passado. André Breton, fundador do surrealismo, vê o movimento como uma continuação do romantismo, quando diz que o seu movimento é a “cauda do cometa romântico”. Os surrealistas, além de críticos do sistema, também criticavam a civilização ocidental, sendo violentamente anticolonialistas, pois o colonialismo é a tentativa de impor essa civilização aos povos da periferia. Assim, um dos primeiros atos políticos do surrealismo foi o apoio a um levante árabe no Marrocos, reprimido pelo colonialismo francês. Já em 1925, logo quando é fundado o movimento surrealista, eles vão apoiar essa revolta anticolonial.
Fórum – Benjamin achava que só uma revolução podia interromper a marcha da sociedade burguesa rumo ao abismo. Essa marcha continua?
Michael Löwy
 – A marcha para o abismo continua, mas tem uma forma diferente. Na época de Benjamin, era a marcha à guerra, à II Guerra Mundial. Hoje em dia a mais nítida é a corrida, não “marcha”, para o abismo, que é a catástrofe ecológica. A marcha vai devagar, mas a corrida do trem vai rápido. É evidente que a civilização capitalista industrial está indo como um trem suicida, com rapidez crescente, em direção a esse abismo, o que é uma catástrofe sem procedentes na história humana. Isso está ligado à dinâmica própria do capitalismo, de expansão ilimitada. Mais uma vez se coloca a urgência do que o Benjamin dizia: precisamos de uma revolução, isso é, puxar os freios desse trem louco.
Ficha técnica 
Título: O capitalismo como religião
Autor: Walter Benjamin
Organizador: Michael Löwy
Orelha: Maria Rita Kehl
Quarta capa: Jeanne Marie Gagnebin
Páginas: 192
ISBN: 978-85-7559-329-5
Preço: R$ 42,00
Coleção: Marxismo e literatura
Editora: Boitempo

quarta-feira, 5 de março de 2014

* Ariano reinou no Galo

Não creio que o Recife, berço de tantas personalidades literárias e culturais, ao longo de sua história de louvações e merecimentos a seus filhos ilustres ou a outros também notáveis, não nascidos aqui, como é o caso do dramaturgo e escritor Ariano Suassuna, tenha aberto o seu coração com tamanha intensidade de simpatia e acolhimento como a esse grande homenageado do Galo da Madrugada, no sábado de Carnaval. Esse foi o sábado talvez mais memorável na vida de Ariano, depois das glórias literárias conquistadas por ele, não tendo sido diferente para os mais de um milhão e meio de foliões que assistiram, como eu, ao desfile carnavalesco em sua homenagem, à reconstrução artística da sua obra literária e seus personagens mundialmente conhecidos e famosos, por meio de carros alegóricos que deveriam ser preservados após o Carnaval. Assim como deveriam ser guardados para mostra permanente outros trabalhos de alegoria carnavalesca em sua homenagem, feitos anteriormente no Recife e por escolas de samba famosas do Rio de Janeiro. 
Tenho para mim que um bom espaço para preservar esse acervo artístico valioso seria por certo a Fundação de Cultura Pedra do Reino, um castelo de verdade construído na cidade pernambucana de São José Belmonte por um jovem empresário, totalmente dedicado à vida e à obra literária de Ariano, que deveria ser conhecido e mais divulgado, tamanho o esforço do seu idealizador. Assim como o interesse da instituição em guardar parte da biblioteca pessoal de Ariano, os livros da vida de Ariano. 
Temo muito em falar de mitos, a começar pelos mitos gregos, tema do meu interesse intelectual mais recente, desde quando voltei da Grécia, em 2012. Os elementos simbólicos e sobrenaturais para explicar a realidade, o mundo, a existência. Não se faz mitos, nenhum deles foi feito, nasceram mito, cresceram sob o olhar dos deuses e se ampliaram mito, em audiência com a eternidade, que inspira confiança e fidelidade. Desconfio das unanimidades: Gilberto Freyre, Guimarães Rosa, José Lins do Rego, entre tantas celebridades brasileiras, não foram unanimidades, infelizmente, por determinada crítica desinformada, caolha, comprometida, unilateral. Nada perderam esses nomes, se eternizaram. Raros, no entanto, tiveram o aplauso caloroso das multidões. O delírio da multidão. Ariano Suassuna e sua capacidade de júbilo, é um deles. 
Nesse sábado de Carnaval, para mim tão feliz, inesquecível e alegre, houve momento de incerteza para meus ouvidos: O delírio todo dos foliões que ouvi de perto era para o Galo ou por esse eterno jovem, imaginoso, criativo, resistente, desafiador, alegre e brincalhão Ariano Suassuna, o talvez mais amado escritor brasileiro dos nossos dias? O autor que reúne a superlativa unanimidade da crítica. A mesma exaltação ao Galo era repetida em louvor a Ariano. Se tivesse saído do camarote, seria carregado nos braços como deus primordial do maior bloco de carnaval do mundo. Compreendi mais uma vez, nesse dia, que o livro vai sobreviver, por causa dele a multidão tomou conta de minha cidade num belo dia de Carnaval. Seja qual for a forma do livro, ele vai sobreviver.
Ariano é singular.O seu reino de criação e imaginação se eternizará. Evoé, Ariano!


Antônio Campos
Advogado, Escritor, Membro da Academia Pernambucana de Letras e Curador da Fliporto.
camposad@campos advogados.com.br

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

* Hoje é o aniversário da União Brasileira de Escritores

UBE festeja 56º aniversário. Esta no ar A VOZ DO ESCRITOR. O endereço éhttp://www.ube.br.com/

CONVITE

O presidente da UNIÃO BRASILEIRA DE ESCRITORES-UBE, escritor Alexandre Santos, tem o prazer de convidar Vossa Senhoria e família, para a comemoração do 56º aniversário de fundação da UBE. Na ocasião a congregação da Ordem do MéritoLiterário JORGE DE ALBUQUERQUE COELHO, se reunirá para admitir o escritor LÚCIO ROBERTO FERREIRA nos quadros da congregação.

Local – Sede da UBE, Rua Santana nº 202, Casa Forte, Recife
Data – 27 de fevereiro de 2014
Horário – das 19 às 21 horas

* Acadêmico Sergio Paulo Rouanet faz na ABL a conferência de abertura do ciclo "Caminhos da crítica"

O ensaísta, filósofo, tradutor, diplomata e Acadêmico Sergio Paulo Rouanet fará a palestra de abertura do ciclo “Caminhos da crítica”, sob coordenação do Acadêmico e poeta Ivan Junqueira, denominada “Caminhos e descaminhos da crítica psicanalítica sobre Machado de Assis”. O evento está programado para terça-feira, dia 11 de março, às 17h30min, no Teatro R. Magalhães Jr., Avenida Presidente Wilson 203, Castelo, Rio de Janeiro. Entrada franca. O ciclo terá mais duas conferências: dia 18, “A crítica literária e seus descontentes”, com o professor João Cezar de Castro Rocha; e dia 25, “Leitura de Infância, de Graciliano Ramos”, com o Acadêmico Alfredo Bosi.
O Coordenador geral dos ciclos deste ano é o Acadêmico Antonio Carlos Secchin, Primeiro-Secretário da ABL.
Saiba mais
O palestrante
Sergio Paulo Rouanet é o oitavo ocupante da Cadeira nº 13 da ABL, eleito em 23 de abril de 1992. Graduou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela PUC-RJ, fez o curso de preparação à carreira diplomática no Instituto Rio Branco, do Itamarati.
Fez cursos de pós-graduação em economia, ciências políticas e filosofia respectivamente na George Washington University, na Georgetown University e na New School for Social Research.
Doutor em Ciência Política pela USP. Foi chefe da Divisão de Política Comercial e do Departamento da Ásia e Oceania, em Brasília. Ocupou postos em Washington,  Nova York e Genebra. Foi cônsul geral em Zurique e Berlim, embaixador do Brasil na Dinamarca e na República Tcheca.
Foi secretário de Cultura da Presidência da República no governo de Fernando Collor. Colaborou em vários jornais inclusive no Jornal do Brasil e na Folha de S. Paulo. Fundou o Instituto Cultural Brasileiro da Alemanha, ICBRA.
Prêmios
Medalha Goethe recebida em Weimer, Alemanha.
Finalista do prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro por Os Dez Amigos de Freud.
Bibliografia
- Imaginário e dominação
- Édipo e o anjo: itinerários freudianos em Walter Benjamin
- Teoria crítica e psicanálise
- A razão cativa: as ilusões da consciência de Platão a Freud
- As razões do Iluminismo
- O Espectador Noturno: a Revolução Francesa através de Rétif de la Bretonne
- Mal-estar na modernidade: ensaios
- A razão nômade: Walter Benjamin e outros viajantes
- Interrogações
- Idéias: da cultura global à universal
- Os dez amigos de Freud
- A latinidade como paradoxo
- Riso e melancolia
- Correspondência de Machado de Assis - Tomo I (1860-1869). ABL - 2008
- Correspondência de Machado de Assis - Tomo II (1870 – 1889) ABL - 2009
- Correspondência de Machado de Assis - Tomo III ABL – (1890-1900) - ABL - 2010

* Abertura da série ‘Música de Câmara na ABL’ de 2014 apresenta o espetáculo ‘Do outro lado do carnaval II’

Abertura da série ‘Música de Câmara na ABL’ de 2014 apresenta o espetáculo ‘Do outro lado do carnaval II’

A Academia Brasileira de Letras apresenta, em sua série “Música de Câmara” de 2014, coordenada pelo Acadêmico Marco Lucchesi, o espetáculo “Do outro lado do carnaval II”, dividido em dois momentos: “Música francesa inspirada no carnaval” e “O carnaval dos clássicos brasileiros”. O concerto está programado para o dia 13 de março, quinta-feira, às 18 horas, no Teatro R. Magalhães Jr., na Avenida Presidente Wilson 203, Castelo. Entrada franca.
Saiba mais
Programa
I
Música francesa inspirada no Carnaval
C. Saint-Saëns - O Carnaval dos Animais - Duo Pianístico da UFRJ: Maria Helena de Andrade e Sonia Vieira (quatro  mãos)
II
O carnaval dos clássicos brasileiros
Ronaldo Miranda – Frevo* - Duo Pianístico da UFRJ: Maria Helena de Andrade e Sonia Vieira (quatro mãos)
Edmundo Villani-Cortes – Impressões de uma marcha rancho** - Trio D’Ambrosio: Ayran Nicodemo (violino), Maria
Célia Machado (harpa) e Maria Helena de Andrade (piano)
Edino Krieger – Prelúdio e Fuga (marcha-rancho)
O. Lorenzo Fernandez – Jongo – Maria Teresa Madeira (piano)
Heitor Villa-Lobos – Samba Clássico
Francisco Mignone – Quizomba (do Maracatu do Chico Rei) – Maria Teresa Madeira (piano) e Inácio de Nonno (barítono)
Chiquinha Gonzaga – Ô Abre Alas – Maria Teresa Madeira (piano)
*Dedicada ao Duo Pianístico da UFRJ
**Dedicada ao Trio d’Ambrosio

* A vingança do indomável Madeira

Por Professor Nazareno*



“Mais uma vez estou de volta às manchetes dos humanos. E como de costume, as notícias sobre a minha reputação são as mais trágicas e pavorosas possíveis. Achincalham-me como se eu fosse a mais terrível das criaturas. Colocam-me mais uma vez contra a parede me acusando das mais dantescas ações. Acusam-me injustamente de estar destruindo vidas, lares, plantações, construções e tantas outras coisas de vocês, pobres sofredores. O problema é que sempre fui injustiçado e incompreendido. Desde as confluências de inúmeros outros meus irmãos andinos, venho há milhões de anos, regando a vida e distribuindo riquezas por onde passo. Ainda em formação, sou muito jovem e sempre fui tranquilo e quieto por onde cotidianamente passo. Sou sinônimo de vida, prosperidade e abundância e jamais em minha existência decepcionei alguém.”
“Não, não estou fazendo mal nenhum a ninguém, pois isto não faz nem nunca fez parte de minha pacífica índole. Esta atual enchente é apenas o reflexo do que fizeram comigo sem a minha permissão. Estou devolvendo aos humanos o que dos próprios homens recebi. Por pura ambição e ganância, vocês rasgaram e dilaceraram meu corpo com duas malditas usinas hidrelétricas nas terras de Rondon. Com pouco ou nenhum conhecimento, alteraram a minha geografia e comprometeram para sempre a minha identidade. São muito hipócritas ou tolos se achavam que eu não reagiria. A montante, por incompetência ou esperteza, seus engenheiros não construíram estradas elevadas o suficiente para se livrar de minhas águas represadas. A jusante, esconderam de todos que me assorearam e por isso minhas águas se esparramam sem controle.”
“Vocês, malditos humanos, é que são maus. A troco de migalhas, alteraram meu curso, explodiram bombas em meu leito, estraçalharam minhas pedras e mataram meus peixes. Depois, roubaram meu ouro, meus metais, minha madeira e toda a minha riqueza. Vocês próprios enganam uns aos outros sem o menor descaramento. Cadê a transposição que lhes prometeram como cala-boca? Cadê a tão propalada isonomia? Vão é devolver o que já receberam. Cadê, enfim, a limpeza desta imunda cidade que vocês habitam? Todo dia, sem ganhar nada em troca, levo toneladas do seu pútrido lixo. Por isso, nem deixei o cimento de suas usinas secar e lhes dei o troco. Não destruí as peças de seus museus. Foi sua própria incompetência que o fez. Podia, se quisesse, levar suas urnas eletrônicas, mas deixei-as para que possam votar e com isso sofrer mais.”
“Nada tenho contra o seu Carnaval nem suas bandas e blocos. Divirtam-se, pulem, ganhem muito dinheiro, coloquem sua alegria na avenida, droguem-se e bebam todas. Aliás, levar vantagem com a miséria e a desgraça alheias sempre foi a sua marca maior. Não ligue para seus irmãos alagados em Calama, São Carlos, Nazaré, Abunã e mesmo em Porto Velho. Eles são pobres e na sua hipócrita sociedade, o que vale um pobre? Dê-lhes um mísero quilo de alimento estragado e fique com a consciência em paz, já que é muito difícil rondoniense gostar de rondoniense. Carnaval é cultura, mano. E tem coisa mais importante e cultural do que beber pinga e pular no meio da rua? Mas, por favor, não me olhem mais com esse olhar atravessado nem me culpem pelas suas mazelas. Seus infortúnios podem estar dentro de vocês mesmos. E eu nada tenho a ver com isso. Precisava apenas de respeito e nunca recebi isto dos senhores.”
*É Professor em Porto Velho.
Fonte: Professor Nazareno

* Zygmunt Bauman: vivemos o fim do futuro

"Para mudar o mundo, os jovens precisam trocar
o mundo virtual pelo real"
 - Zygmunt Bauman

Esta semana (16), o Fronteiras do Pensamento divulgou uma fala de Edgar Morin em que o filósofo francês argumenta que estamos vivendo o fim do futuro. Para Morin, a sociedade percebeu a ambivalência da ciência, da razão, da técnica e da economia e perdeu a crença nestes enquanto guias da humanidade: "A crise do futuro, a crise do progresso. A perda do futuro é muito grave porque, quando se perde a esperança no futuro surge uma sensação de angústia e de neurose", afirma Morin. 
Universitat Oberta de CatalunyaA revista Época publicou, também esta semana (19), uma entrevista exclusiva com o filósofo polonês Zygmunt Bauman. Na conversa com o editor de cultura da Época, Luís Antônio Giron, Bauman, considerado um dos pensadores mais eminentes do declínio da civilização, fala sobre como a vida, a política e os padrões culturais mudaram nos últimos 20 anos.
As instituições políticas perderam representatividade porque sofrem com um “deficit perpétuo de poder”. Na cultura, a elite abandonou o projeto de incentivar e patrocinar a cultura e as artes. Segundo ele, hoje é moda, entre os líderes e formadores de opinião, aceitar todas as manifestações, mas não apoiar nenhuma. Leia a entrevista abaixo ou confira no site da Época. Ao final do texto, acrescentamos a entrevista exclusiva que Bauman concedeu a Fernando Schüler e Mário Mazzilli, na Inglaterra, para o Fronteiras do Pensamento.

Entrevista Zygmunt Bauman: "Vivemos o fim do futuro"
por Luís Antônio Giron para Época (19/02/2014)

Época: De acordo com sua análise, as pessoas vivem um senso de desorientação. Perdemos a fé em nós mesmos?
Zygmunt Bauman: 
Ainda que a proclamação do “fim da história” de Francis Fukuyama não faça sentido (a história terminará com a espécie humana, e não num momento anterior), podemos falar legitimamente do “fim do futuro”. Vivemos o fim do futuro. Durante toda a era moderna, nossos ancestrais agiram e viveram voltados para a direção do futuro. Eles avaliaram a virtude de suas realizações pela crescente (genuína ou suposta) proximidade de uma linha final, o modelo da sociedade que queriam estabelecer. A visão do futuro guiava o presente. Nossos contemporâneos vivem sem esse futuro. Fomos repelidos pelos atalhos do dia de hoje. Estamos mais descuidados, ignorantes e negligentes quanto ao que virá.

Época: Segundo o senhor, a decadência da política acontece desde o século passado. A situação piorou agora?
Zygmunt Bauman: 
A decadência da política é causada e reforçada pela crise da agenda política. As instituições amarram o poder de resolver os problemas à política. Ela seria capaz de decidir que coisas precisariam ser feitas. Nossos antepassados conceberam uma ordem que dependia dos serviços do Estado-nação. Mas essa ordem não é mais adequada aos desafios postulados pela contínua globalização de nossa interdependência. Com a separação do poder e da política, a gente se encontra na dupla situação de poderes livres do controle político e da política que sofre o deficit perpétuo do poder. Daí a crise de confiança nas instituições políticas, uma vez que a política investiu nos parlamentos e nos partidos para construir a democracia como atualmente a compreendemos. Mais e mais pessoas duvidam que os políticos sejam capazes de cumprir suas promessas. Assim, elas procuram desesperadamente veículos alternativos de decisão coletiva e ação, apesar de, até agora, isso não ter representado uma alteração efetiva.
Época: As redes sociais aumentaram sua força na internet como ferramentas eficazes de mobilização. Como o senhor analisa o surgimento de uma sociedade em rede?
Zygmunt Bauman: Redes, você sabe, são interligadas, mas também descosturadas e remendadas por meio de conexões e desconexões... As redes sociais eram atividades de difícil implementação entre as comunidades do passado. De algum modo, elas continuam assim dentro do mundo off-line. No mundo interligado, porém, as interações sociais ganharam a aparência de brinquedo de crianças rápidas. Não parece haver esforço na parcela on-line, virtual, de nossa experiência de vida. Hoje, assistimos à tendência de adaptar nossas interações na vida real (off-line), como se imitássemos o padrão de conforto que experimentamos quando estamos no mundo on-line da internet.

Época: Os jovens podem mudar e salvar o mundo? Ou nem os jovens podem fazer algo para alterar a história?
Zygmunt Bauman: Sou tudo, menos desesperançoso. Confio que os jovens possam perseguir e consertar o estrago que os mais velhos fizeram. Como e se forem capazes de pôr isso em prática, dependerá da imaginação e da determinação deles. Para que se deem uma oportunidade, os jovens precisam resistir às pressões da fragmentação e recuperar a consciência da responsabilidade compartilhada para o futuro do planeta e seus habitantes. Os jovens precisam trocar o mundo virtual pelo real.
Época: Como o senhor vê a nova onda de protestos na Europa, no Oriente Médio, nos Estados Unidos e na América Latina, que aumentou nos últimos anos?
Zygmunt Bauman: Se Marx e Engels escrevessem o Manifesto Comunista hoje, teriam de substituir a célebre frase inicial – “Um espectro ronda a Europa – o espectro do comunismo” – pela seguinte: “Um espectro ronda o planeta – o espectro da indignação”. Esse novo espectro comprova a novidade de nossa situação em relação ao ano de 1848, quando Marx e Engels publicaram o Manifesto. Faltam-nos precedentes históricos para aprender com os protestos de massa e seguir adiante. Ainda estamos tateando no escuro.

Universitat Oberta de CatalunyaÉpoca: O senhor afirma que as elites adotaram uma atitude de máximo de tolerância com o mínimo de seletividade. Qual a razão dessa atitude?
Zygmunt Bauman: Em relação ao domínio das escolhas culturais, a resposta é que não há mais autoconfiança quanto ao valor intrínseco das ofertas culturais disponíveis. Ao mesmo tempo, as elites renunciaram às ambições passadas, de empreender uma missão iluminadora da cultura. A elite deixou de ser o mecenas da cultura. Hoje, as elites medem sua superioridade cultural pela capacidade de devorar tudo.

Época: Essa diluição dos valores explica por que artistas como Damian Hirst e Jeff Koons buscam mais fama do que reconhecimento artístico?
Zygmunt Bauman: Prefiro não generalizar sobre esse tema. Os artistas, suas performances e produtos são hoje em dia muitos e diferentes, e os veredictos apressados são equivocados. Pessoalmente, detesto e me aborreço com os Damiens Hirsts, Jeff Koons e similares. Mas eles são ostensivamente sustentados pelas correntes e modas guiadas pelo mercado. Os mercados usurparam o mecenato das artes das igrejas e dos Estados. Por isso, o meio é realmente a mensagem da arte contemporânea.
Época: Como diz o crítico George Steiner, os produtos culturais hoje visam ao máximo impacto e à obsolescência instantânea. Há uma saída para salvar a arte como uma experiência humana importante?
Zygmunt Bauman: Bem, esses produtos se comportam como o resto do mercado. Voltam-se para as vendas de produtos na sociedade dos consumidores. Uma vez que a busca pelo lucro continua a ser o motor mais importante da economia, há pouca oportunidade para que os objetos de arte cessem de obedecer à sentença de Steiner...

Época: O senhor diz que a cultura se tornou dependente da moda. Por que isso ocorre?
Zygmunt Bauman: Modas vêm e vão e são tão velhas quanto a cultura, tão antigas quanto o homo sapiens... O que a fez tão espetacularmente presente em nossa vida diária é o impacto combinado da comunicação digital em tempo real e da produção em massa com a associação entre butiques de alta-costura e grandes redes de lojas. As manifestações culturais e artísticas são arrastadas pelo motor da moda.
Época: A moda pode dar sentido à vida das pessoas?
Zygmunt Bauman: A moda tem seus usos e uma demanda enorme e crescente. Ela fornece um modelo para a constante troca de identidades de nosso mundo. Funciona também como antídoto contra o horror de falhar num mundo em alta velocidade e contra o resultante abandono e degradação social. Não há nada de inútil na moda. Pelo contrário, é uma necessidade num mundo de flutuação e desorientação.
Época: Seus livros parecem pessimistas, talvez porque abram demais os olhos dos leitores. O senhor é pessimista? Ou busca a alegria de alguma forma, apesar de todos os problemas?
Zygmunt Bauman: A meu ver, os otimistas acreditam que este mundo é o melhor possível, ao passo que os pessimistas suspeitam que os otimistas podem estar certos... Mas acredito que essa classificação binária de atitudes não é exaustiva. Existe uma terceira categoria: pessoas com esperança. Eu me coloco nessa terceira categoria. De outra forma, não veria sentido em falar e escrever...

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Diálogos com Zygmunt Bauman: democracia, laços sociais, comunidade, rede, pós-modernidade e outros tópicos são analisados por Bauman em entrevista exclusiva concedida a Fernando Schüler e Mário Mazzilli