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segunda-feira, 12 de agosto de 2013

* A larga utlização de pseudônimos na Literatura


Uso de pseudônimos por escritores tem longa tradição e vários motivos

Ao assinar sua nova obra com um nome masculino, a britânica J. K. Rowling chamou a atenção para uma velha tradição: o uso de pseudônimos por escritores. Só que nem todos o fizeram por motivos prosaicos.
O mundo dos livros é como um pequeno lago com inúmeros peixes pequenos e uns poucos grandes. Quando algo extraordinário acontece, logo se formam ondas enormes. Foi o que aconteceu no mês passado, quando foi revelado à imprensa que a escritora britânica J. K. Rowling é a verdadeira autora do romance policial The cuckoo's calling, lançado em janeiro deste ano.
Rowling, autora de nada menos que a série Harry Potter, assinou a história de detetive com o pseudônimo Robert Galbraith. O livro deve ser lançado no Brasil em novembro.
As reações foram controversas. Alguns elogiaram a atitude da autora, que ao usar um pseudônimo, livrou-se do peso da expectativa do público, natural depois de tantos best-sellers. Mas outros se questionaram por que uma escritora de tanto sucesso escolheu se esconder atrás de uma identidade masculina.
Fenômeno antigo
No caso de Erich Kästner, a troca de nome na Alemanha nazista era caso de vida ou morte
O uso de pseudônimos não é um fenômeno novo na história da literatura. Mas, em muitos casos, identidades alternativas foram adotadas por razões bem mais sérias, como evitar perseguições.
O autor alemão Erich Kästner, por exemplo, foi proibido de escrever durante o período nazista. Mas ele continuou produzindo, com relativo sucesso, assinando suas obras com nomes como Berthold Bürger, Melchior Kurtz e Robert Neuner.
Um exemplo mais recente é o do escritor argelino Mohammed Moulessehoul, que publicou obras usando o nome da esposa, Yasmina Khadra. Militar, ele temia ser censurado se publicasse com o próprio nome.
Pseudônimos também foram um artifício recorrente entre mulheres, que usavam nomes de homens para poder publicar. Em pleno século 20, vários países europeus tinham leis que impediam que mulheres ganhassem dinheiro sem a permissão do marido.
Exemplos famosos são os de George Sand (que na verdade se chamava Amandine Aurore Lucile Dupin) e George Eliot (Mary Anne Evans). No século 19, as irmãs Brontë – Anne, Charlotte e Emily – também publicaram poemas e romances sob as identidades masculinas Acton Bell, Currer Bell e Ellis Bell.
Romances policiais
No século 19, Amandine de Francueil assinava suas obras como 'George Sand'
Esses são exemplos do passado, mas ainda hoje escritores e escritoras muitas vezes sentem a força dos estereótipos. Para o senso comum, mulheres devem produzir obras românticas e "leves". Aos homens são reservados os thrillers.
Sendo assim, mesmo hoje em dia não é nada incomum escritoras usarem um pseudônimo ou uma identidade "neutra" – recorrendo ao uso de iniciais – para invadir campos tidos como masculinos.
A britânica Phyllis Dorothy James, grande dama dos romances policiais, é um exemplo disso. Ela assina suas obras apenas como P.D. James. Situação semelhante ocorre com a própria J. K. Rowling. Enquanto em alguns mercados, como o alemão, ela assina suas obras com seu primeiro nome, Joanne, no Reino Unido, nos Estados Unidos e no Brasil apenas suas iniciais aparecem na capa dos livros.
Na Alemanha, a autoria de romances policiais é bem dividida entre os gêneros, segundo Edgar Franzmann, porta-voz da associação de escritores Syndicate. Ele ressalta que, entre os 800 membros da associação, o número de homens e de mulheres é praticamente igual. Ele afirma desconhecer mulheres que usem pseudônimos masculinos para assinar suas obras.
Günter Butkus, diretor da editora alemã Pendragon, concorda com Franzmann e diz que pseudônimos quase não são usados no país. Mas Butkus sugere que este pode ser um recurso útil para autores que se aventuram por vários gêneros e temas.
Mais glamour
Capa do novo livro de J. K. Rowling, assinado por "Robert Galbraith"
Desde 1960 editores e leitores alemães não têm qualquer problema com mulheres que escrevem romances policiais. Naquele ano, o prêmio Edgar Wallace foi dado ao romance Dead in St.Pauli, inscrito sem o nome do autor. Quando o júri descobriu que o livro havia sido escrito por uma mulher, quis evitar a entrega do dinheiro da premiação. A autora da obra, Irene Rodrian, acabou se tornando uma das figuras centrais do gênero na Alemanha.
Apesar de o sexo do autor ser cada vez menos importante, muitos continuam usando pseudônimos. Cora Stephan, que escreve como Anne Chaplet, argumenta que seu nome de batismo não tem o glamour suficiente para o gênero policial.
"O pseudônimo era importante porque eu queria que meus livros fossem um sucesso", diz a escritora. "Estava preocupada em não ser levada a sério como uma escritora de histórias policiais com meu nome verdadeiro", comenta.

DW.DE

domingo, 28 de julho de 2013

* Os vários papéis dos pseudônimos na literatura

Revelação que J. K. Rowling escreveu livro com outro nome lembra uma longa tradição literária de alcunhas de escritores e poetas

J. K. Rowling assumiu recentemente que escrever com pseudônimo foi uma

J. K. Rowling assumiu recentemente que escrever com pseudônimo foi uma "experiência libertadora"

Divulgação

Ser alguém pode ser uma prisão: de certa forma, um nome sempre carrega o peso de uma história, de uma fama e de alguns hábitos. Na literatura, escapar de si mesmo é um expediente comum; na verdade, um dos motores da ficção e dos versos é a permissão para inventar para si mesmo um papel, uma linguagem e uma olhar diferente a partir de um narrador, por exemplo. Quando isso não é suficiente, no entanto, sempre existem outras formas, tão radicais quanto comuns: os pseudônimos.
Um caso recente surpreendeu o mundo. Na semana passada, a best-seller inglesa J. K. Rowling admitiu que havia publicado um romance policial usando o nome Robert Galbraith por uma pequena editora inglesa – algo que não é incomum entre autores famosos da literatura. A obra havia ganhado resenhas elogiosas, mas não tinha ido além de 1,5 mil cópias vendidas. Agora já é a mais vendida da semana em várias livrarias estrangeiras – sinal de que até no mundo do mercado literário saber escrever dentro de um gênero não é suficiente: a fama sempre é importante.
Na nota em que admitiu a manobra, J.K. Rowling comentou que a experiência havia sido “absolutamente libertadora”. De certa forma a invenção de uma outra persona literária para si mesmo sempre nasce sob o signo da liberdade: contra a repressão política ou estética, contra uma expectativa de leitores, contra o próprio estilo.
“Para alguns autores, o pseudônimo serve para não se expor. Para outros, é uma forma de nascer novamente, um requinte ligado a uma nova biografia que foge do cotidiano”, explica a professora de Letras da UFPE e poeta Lucila Nogueira. No livro Pseudonímia e literatura: Cravan/Pessoa/Drummond, ela analisa o uso da criação de outro nome como parte da obra desses autores. “Um pseudônimo pode ser uma forma de ocultação e, ao mesmo tempo, de revelação de uma de vida”, aponta.
Ainda que hoje Lucila acredite que mundo literário é mais aberto, o que exige menos pseudônimos, ela não vê que o recurso deve parar de ser utilizado em breve. Uma prova disso é a existência de autores contemporâneos, para além de J. K. Rowling, que se usam de alcunhas para parte da sua obra.
A questão é que o tipo de liberdade buscado não é em relação a uma repressão política ou estética. “Um novo nome literário fornece a qualquer autor uma boa oportunidade pra que este se reinvente, reinventado seu mundo”, conta o escritor paulista Luiz Bras, nome que Nelson de Oliveira começou a assumir há mais de dez anos. Mais do que uma duplicação, o pseudônimo se tornou sua única voz atual. Em 2012, ele avisou que não mais escreveria como Nelson, dono de uma vasta obra ficcional e acadêmica.
A mudança, para Luiz, foi completamente benéfica. “Se bem administrado, um novo nome literário pode salvar um autor. Foi o que aconteceu comigo. Fui salvo da repetição e da mesmice”.
Um outro caso da produtividade de uma outra identidade é o poeta pernambucano Raimundo de Moraes. Seu primeiro heterônimo – ele vê uma diferença fundamental entre o termo e o conceito de pseudônimo – foi Aymmar Rodriguéz, que apareceu na década de 1980. O personagem não apareceu por escolha sua, mas por uma necessidade que foge à sua compreensão. “Eu nunca planejei nada. Aymmar surgiu de repente e eu jamais poderia assinar a produção dele como Raimundo”, conta o autor. “A minha poesia como Raimundo e como Aymmar é tão diferente que é até contraditória”.