domingo, 28 de julho de 2013

* Os vários papéis dos pseudônimos na literatura

Revelação que J. K. Rowling escreveu livro com outro nome lembra uma longa tradição literária de alcunhas de escritores e poetas

J. K. Rowling assumiu recentemente que escrever com pseudônimo foi uma

J. K. Rowling assumiu recentemente que escrever com pseudônimo foi uma "experiência libertadora"

Divulgação

Ser alguém pode ser uma prisão: de certa forma, um nome sempre carrega o peso de uma história, de uma fama e de alguns hábitos. Na literatura, escapar de si mesmo é um expediente comum; na verdade, um dos motores da ficção e dos versos é a permissão para inventar para si mesmo um papel, uma linguagem e uma olhar diferente a partir de um narrador, por exemplo. Quando isso não é suficiente, no entanto, sempre existem outras formas, tão radicais quanto comuns: os pseudônimos.
Um caso recente surpreendeu o mundo. Na semana passada, a best-seller inglesa J. K. Rowling admitiu que havia publicado um romance policial usando o nome Robert Galbraith por uma pequena editora inglesa – algo que não é incomum entre autores famosos da literatura. A obra havia ganhado resenhas elogiosas, mas não tinha ido além de 1,5 mil cópias vendidas. Agora já é a mais vendida da semana em várias livrarias estrangeiras – sinal de que até no mundo do mercado literário saber escrever dentro de um gênero não é suficiente: a fama sempre é importante.
Na nota em que admitiu a manobra, J.K. Rowling comentou que a experiência havia sido “absolutamente libertadora”. De certa forma a invenção de uma outra persona literária para si mesmo sempre nasce sob o signo da liberdade: contra a repressão política ou estética, contra uma expectativa de leitores, contra o próprio estilo.
“Para alguns autores, o pseudônimo serve para não se expor. Para outros, é uma forma de nascer novamente, um requinte ligado a uma nova biografia que foge do cotidiano”, explica a professora de Letras da UFPE e poeta Lucila Nogueira. No livro Pseudonímia e literatura: Cravan/Pessoa/Drummond, ela analisa o uso da criação de outro nome como parte da obra desses autores. “Um pseudônimo pode ser uma forma de ocultação e, ao mesmo tempo, de revelação de uma de vida”, aponta.
Ainda que hoje Lucila acredite que mundo literário é mais aberto, o que exige menos pseudônimos, ela não vê que o recurso deve parar de ser utilizado em breve. Uma prova disso é a existência de autores contemporâneos, para além de J. K. Rowling, que se usam de alcunhas para parte da sua obra.
A questão é que o tipo de liberdade buscado não é em relação a uma repressão política ou estética. “Um novo nome literário fornece a qualquer autor uma boa oportunidade pra que este se reinvente, reinventado seu mundo”, conta o escritor paulista Luiz Bras, nome que Nelson de Oliveira começou a assumir há mais de dez anos. Mais do que uma duplicação, o pseudônimo se tornou sua única voz atual. Em 2012, ele avisou que não mais escreveria como Nelson, dono de uma vasta obra ficcional e acadêmica.
A mudança, para Luiz, foi completamente benéfica. “Se bem administrado, um novo nome literário pode salvar um autor. Foi o que aconteceu comigo. Fui salvo da repetição e da mesmice”.
Um outro caso da produtividade de uma outra identidade é o poeta pernambucano Raimundo de Moraes. Seu primeiro heterônimo – ele vê uma diferença fundamental entre o termo e o conceito de pseudônimo – foi Aymmar Rodriguéz, que apareceu na década de 1980. O personagem não apareceu por escolha sua, mas por uma necessidade que foge à sua compreensão. “Eu nunca planejei nada. Aymmar surgiu de repente e eu jamais poderia assinar a produção dele como Raimundo”, conta o autor. “A minha poesia como Raimundo e como Aymmar é tão diferente que é até contraditória”.

* Justiça ordena teste de DNA a restos mortais de Neruda

Exame se faz necessário para descobrir se o escritor foi envenenado na ditadura de Augusto Pinochet


O juiz chileno Mario Carroza ordenou a realização de testes de DNA nos restos exumados do poeta Pablo Neruda para confirmar sua identificação, dentro de uma investigação para determinar se ele foi envenenado na ditadura de Augusto Pinochet.
Carroza solicitou ao Serviço Médico Legal a identificação científica dos restos exumados em 8 de abril passado, na casa de Pablo Neruda, na Isla Negra, com base no DNA de seus familiares mais próximos.
"Se o DNA não coincidir com o de seus familiares, estaremos em condições de confirmá-lo com amostras de seus pais, que se encontram enterrados no sul do país", disse o juiz aos jornalistas.
Pablo Neruda teve apenas uma filha de seu primeiro casamento, e ela faleceu aos nove anos, na Holanda, por hidrocefalia. Os parentes mais próximos que continuam vivos são seus sobrinhos.
Os restos mortais do poeta estão sendo submetidos paralelamente a exames toxicológicos na Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, e na Universidade de Múrcia, na Espanhaa.
Oficialmente, a morte de Neruda é atribuída ao agravamento de um câncer de próstata. Depois das recorrentes denúncias do ex-assistente pessoal Manuel Araya, de que o poeta pode ter sido envenenado, investiga-se se foi assassinado por agentes do regime Pinochet (1973 - 1990).
As primeiras perícias confirmaram que o poeta sofria de um câncer de próstata em estágio avançado, mas as análises toxicológicas ainda não foram concluídas.

* Obra de Osman Lins ainda precisa ser mais lida



ESQUECIDO

Escritor pernambucano deixou muitos autores influenciados pela sua obra; as homenagens a Avalovara neste ano tem sido tímidas

Publicado em 28/07/2013, às 05h44

Osman Lins foi referência para nomes como Raimundo Carrero, Milton Hatoum e Marcelino Freire / Reprodução

Osman Lins foi referência para nomes como Raimundo Carrero, Milton Hatoum e Marcelino Freire

Reprodução


Não é só Avalovara que não tem o destaque que merece: a obra de Osman Lins como um todo ainda precisa ter sua importância avaliada, principalmente romances como Nove, novena e A rainha dos cárceres da Grécia – a exceção honrosa é a peça Lisbela e o prisioneiro, que foi adaptada para o cinema com grande sucesso de público. Para o professor de Letras Fábio Andrade, a questão é ainda mais grave. “Falta ainda um reconhecimento de toda obra dele, tanto da prosa como do pensamento crítico”, aponta.
Para Lourival Holanda, também acadêmico, é difícil pensar em autor escritor da dimensão de Osman que tenha aparecido em Pernambuco desde então. “Por que Raduan Nassar não nasceu por aqui?”, lamenta. “Muitos escrevem, poucos bem; quase ninguém fez da escrita uma profissão de fé, feito Osman. A estética literária dele é também uma ética; reordenar, na frase, o mundo”.
Ele identifica, no entanto, leitores atentos da obra de Osman no Brasil, como Milton Hatoum, Marcelino Freire e o próprio colega Fábio Andrade. Fábio confessa a referência. “Eu estou tentando tirar essa influência osmaniana da minha prosa. Meu primeiro romance, que estou preparando agora, é uma desconstrução”, revela. “Não deixa de ser uma marca da importância de Osman para mim: ter que assassinar um pai literário é algo muito simbólico”.
O escritor Raimundo Carrero também foi marcado pela obra do vitoriense. “Quando li Osman, eu modifiquei toda a minha maneira de escrever”, expõe. “Ele é um autor notável que tinha uma compreensão absoluta do romance como uma sinfonia, que é o que até hoje eu levo para as minhas obras. Ele não conta uma história, mas sim as atravessa com os sons, com a luz”.
Para Carrero, é importante enxergar os 40 anos de Avalovara como um momento perfeito para tirar Osman do esquecimento do público e da crítica. Uma mesa no Festival Internacional deste ano abordou a proximidade entre o grupo OuLiPo e o autor pernambucano, mas outras homenagens oficiais ainda não foram anunciadas – em 2014, ainda serão celebrados os 90 anos de nascimento de Osman. Fábio, no entanto, adianta que está tentando organizar com Lourival Holanda um colóquio sobre a obra do pernambucano para comemorar a efeméride em setembro.


Os 40 anos da espiral literária de Avalovara, de Osman Lins

Obra, uma das mais importantes da prosa brasileira, tem estrutura complexa e inovadora, mas é pouco celebrada atualmente

Publicado em 28/07/2013, às 05h44

Osman Lins construiu sua principal obra a partir do complexo jogo de um espiral com um quadrado / Reprodução

Osman Lins construiu sua principal obra a partir do complexo jogo de um espiral com um quadrado

Reprodução


Nascer um prosador em uma terra de poetas iria marcar a ironia da obra do escritor vitoriense Osman Lins (1924-1978), talvez o maior nome da literatura pernambucana depois de Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto. Nome reconhecido pela crítica internacional, o criador de obras como Nove, novena ainda hoje é pouco lido na sua própria terra, quase ignorado por novas gerações. No ano que sua maior obra-prima, Avalovara, completa 40 anos do seu lançamento, o incômodo é ainda maior: continuamos a desviar os olhos de uma das prosas mais fortes já produzidas no Brasil.
É só pensar no próprio Avalovara – o ponto principal de equilíbrio entre o seu experimentalismo formal e a preocupação com as questões humanas – para entender a revolução que a obra significa. O romance traz o personagem Abel e a história de três mulheres de sua vida, relacionadas a cidades como Recife, São Paulo, Amsterdã e Roma Antiga, e tem figuras singulares, como o pássaro feito de pássaros que nomeia a obra.
A trama parece simples ou, ao menos, não tão radical assim. É a sua união a experiência (mais do que experimento) radical de narrativa que faz deAvalovara o romance que o argentino Julio Cortázar disse que, se tivesse escrito, passaria 20 anos sem tentar criar outra obra. A partir do palíndromo em latim “sator arepo tenet opera rotas” (com vários sentidos, sendo um deles algo como “o lavrador sustém cuidadosamente o mundo em sua órbita”), ele cria uma narrativa que funciona a partir da inscrição de um espiral em um quadrado, que possibilita inúmeras leituras das frase.
Essa estrutura não é um detalhe. Como aponta a professora de Letras Leny da Costa Gomes, da Universidade de Brasília, o próprio Osman ressalta o papel dessa organização no romance: “Quando, em Avalovara, me ocupo do romance, da organização do romance, ocupo-me do mundo, da transição do caos ao cosmos”. Segundo ela, a obra reflete essa busca pela ordenação do caos. “Esse processo de organização, que é de contínua interação, também gera a dispersão, formando um movimento espiralado; portanto, aberto, sem início nem fim”, defende.
Avalovara foi lançado dez anos depois de o de outro romance de forma radical:O jogo da amarelinha, de Cortázar, que traz vários caminhos de leitura. “Em um certo sentido, Avalovara é até mais ambicioso. O romance é um ápice de uma obra que, desde o início, conseguiu unir experimentalismo formal com uma atenção às questões humanas fundamentais. Ele é sobre grandes temas, como a incomunicabilidade e o papel do amor e da morte”, aponta o poeta e professor da UFPE Fábio Andrade, que fez sua dissertação de mestrado sobre a obra.
Para o pesquisador, no entanto, a semelhança entre os livros se limita a essa invenção formal. “Na escrita em si, eu vejo diferenças. Cortázar tem uma linguagem que corre; Osman tem uma prosa estacada, mais pontual”, descreve.
“Eu diria que a estrutura de Avalovara é como uma jaula dentro da qual se movem animais selvagens. Inquietude, angústia, desespero, tudo o que faz parte da nossa condição. (...) Não há nada obscuro em Avalovara. É como se eu tentasse transmitir com a maior
”Osman Lins, escritor, em entrevista
Um dos maiores críticos literários brasileiros, Antônio Cândido se rendeu ao livro. “O que desde logo prende em Avalovara é a poderosa coexistência da deliberação e da fantasia, do calculado e do imprevisto, tanto no plano quanto na execução de cada parte”. Desde esse depoimento, no prefácio do livro, o romance publicado há 40 anos mostra que não se sustenta apenas pela estrutura: há uma invenção na narrativa e na linguagem também.
O professor da UFPE Lourival Holanda, organizador de três volumes de contos de Osman Lins, destaca também o controle da linguagem do autor, um “romântico com cabresto”. Para ele, a modernidade de Osman vem daí e, apesar de alguma semelhanças com os jogos e as restrições que movimentavam os autores do grupo OuLiPo, como Georges Perec e Raymond Queneau, vai além. O pernambucano, ele ressalta, “tem uma atitude crítica com relação á linguagem; não ‘cede’ à expressão: antes, luta com ela”. “Nove, novena eAvalovara são os dois momentos mais altos da produção dele”, afirma.
O escritor pernambucano Raimundo Carrero entende que a obra pertence a um cânone privilegiado da literatura. “Avalovara é um livro maior não para o Brasil, mas para a humanidade. É do tamanho de Grande sertão: veredasDom Casmurro e O romance d’a Pedra do Reino”, define. Fábio Andrade lembra que, quando o livro foi lançado na França, foi considerado um dos três ou quatro melhores traduzidos na década.
Por aqui, ele ressalta, apesar de Avalovara ter sido considerado “difícil” pela crítica, foi um dos livros mais vendidos do Brasil em 1973, quando foi lançado. O reconhecimento veio por nomes grandes da crítica literária da época, como Antônio Cândido e João Alexandre Barbosa, mas o romance também foi muito incompreendido. “Queriam encontrar em Avalovara um livro explicitamente contra a ditadura, mas ele era muito mais do que isso”, diz o pesquisador.
Um dos fatos que mostra Avalovara como uma obra viva é o projeto Uma rede no ar – Os fios invisíveis da opressão em Avalovara, de Osman Lins. Na página, é possível acompanhar vários percursos da principal narrativa de Osman. Segundo a professora Leny da Costa Gomes, um dos nomes a frente do projeto, a proposta era fazer um levantamento dos elementos arquitetônicos, artísticos e intertextuais da obra. “A ideia era transformar os dados em um sistema hipertextual, que possibilitasse a navegação por links em contínuo processo de alimentação, que poderia ser feito pelos leitores”, conta.
O que impede uma maior circulação do romance hoje, para Fábio, é a falta de textos críticos e professores capacitados.“O valor do romance assusta um pouco, exige que quem se aproxime dele se comprometa. Não dá para fazer uma leitura acadêmica rasa”, atesta o pesquisador. A experiência de leitura deAvalovara continua disponível, 40 anos depois, para quem quiser mergulhar nos seus abismos.


LANÇAMENTO

Última novela escrita por Osman Lins ganha edição em livro

Em edição trilíngue, a narrativa traz uma enredo sombrio e quase premonitório sobre o autor, que morreria no mesmo ano de sua publicação

Publicado em 28/07/2013, às 05h44


Uma das raras novidades editoriais da produção de Osman Lins neste ano é o lançamento de uma edição trilíngue do seu último texto, a novelaDomingo de Páscoa, escrita em 1978 e publicada na revista Status. A narrativa, antes inédita em livro, sai pela Editora UFSC, com organização de Ana Luiza Andrade, pesquisadora da obra do autor. Além do texto original, o volume conta com artigos crítico da viúva do escritor, Julieta de Godoy Ladeira, já falecida, de Ana Luiza e de Fred P. Ellison, todos vertidos também para o espanhol e o inglês.
“Trata-se de uma ‘novela’ enigmática em seus questionamentos. E parece-me que ele se interroga novamente sobre o seu ofício na conjuntura cultural que o cercava então, iluminando criticamente o caminho da arte no mundo atual”, opina a organizadora. A narrativa se passa em uma praia do Espírito Santo, inspirada em uma viagem do próprio autor com Julieta. No texto, um enfermeiro particular acompanha sua paciente em um tratamento nas terras curativas da região, enquanto observa a figura de um estrangeiro misterioso e sente o espectro da morte ao redor do seu hotel.
No prefácio da novela, Julieta destaca como a narrativa parece ter sido um presságio do futuro do autor pernambucano – principalmente porque ele morreria no ano da sua publicação. “Poucos escritores se deram tanto e tão profundamente à sua arte a esse ponto, o de um envolvimento em que de certo modo os fatos literários, criados através de uma busca tão intensa, de tão grande entrega, fossem em alguns casos se cumprindo, depois, na realidade vivida pelo autor”, afirma a escritora. A metáfora de um homem acometido até mesmo fisicamente pela própria literatura é perfeita para Osman, que parece ter vivido fora das palavras.
Leia um trecho de Domingo de Páscoa:
As longas tábuas ensolaradas do piso cheiram a cedro e cera. Vem do banheiro esse perfume que sentimos ao atravessar um pinheiral e o ar marítimo agita as cortinas florosas em ondas lentas como que se desfazem lá embaixo, inaudíveis, molhando a exígua praia ainda fresca e os pés dos velhos. Eles desfilam, quase sempre aos pares, os cotovelos um pouco levantados, ou sentam-se no chão, pernas estendidas, cobrem as juntas com a areia negra e com a argila viscoca, ocre, sempre renovada pelo mar. Somadas, suas idades espantam, eles em conjunto um ancião monstruoso, várias vezes milenar, observando furtivos, com nostalgia, cobiça e vontade de cuspir, meu torso musculoso, meus inconcebíveis quarenta e quatro anos. Fragrâncias de loções, de pós e de cremes de beleza mesclam-se ao pérfido aroma do assoalho, infestado do ruflar de asas e de escamas deslizando: espectros de pássaros e de répteis. Só uma hóspede, o corpo lustroso de óleo, se expõe ao sol junto à piscina, numa cadeira reclinável.


Leia o texto na íntegra no Jornal do Commercio deste domingo (28/7)

* TJPE decide em favor da Cia de Eventos na questão da Bienal do Livro

Decisão garante o direito da produtora privada organizar o evento em 2013, além de garantir a reserva do Centro de Convenções


A Cia de Eventos obteve ontem mais uma vitória na justiça em relação à disputa pelo direito de organizar a Bienal Internacional do Livro de Pernambuco de 2013. O Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) decidiu que a empresa deve ser considerada a única detentora dos direitos de realização do evento – a Associação do Nordeste das Distribuidoras e Editoras de Livros (Andelivros) pleiteava também o posto.
Em outro processo, a Cia de Eventos também garantiu a reserva do espaço do Centro de Convenções para o período de 4 a 13 de outubro deste ano. A Empresa de Turismo de Pernambuco (Empetur) havia transferido para a Andelivros, ato que já havia sido questionado na justiça em primeira instância, com vitória confirmada neste segundo momento.
Segundo a assessoria de imprensa da Cia de Eventos, a dois meses do evento, boa parte da programação já está definida. O tema deste ano é Literatura, futebol e identidades nacionais, com homenagens a Antônio Maria, Gilvan Lemos, Cancão, José Cortez, Tarcísio Pereira e Eurico Barros e Silva.
A disputa entre a Andelivros e a Cia de Eventos é antiga. Na edição anterior, em 2011, a Andelivros, que recebe os vales para compra de livros para professores e alunos disponibilizados pelo Governo do Estado, entrou na justiça às vésperas do evento para exigir que a Bienal do Livro fosse gratuita. A Andelivros alega ser a contratante dos serviços da Cia de Eventos; a produtora privada, por sua vez, alega que a associação foi apenas parceira dela na realização do evento porque uma entidade privada não pode receber os repasses dos vales do governo.

Pernambuco pode ter duas Bienais do Livro em 2013

A Andelivros avisou que vai recorrer das decisões judiciais e já tem data e local para o evento, entre 10 e 17 de setembro, no Chevrolet Hall


Após a decisão do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) em favor da produtora Cia de Eventos como organizadora da Bienal Internacional do Livro de Pernambuco deste ano, a Associação do Nordeste das Distribuidoras e Editoras de Livros (Andelivros) avisou que vai recorrer e pretende levar o caso até a última instância possível. A entidade de livreiros ainda alertou que vai realizar uma Bienal do Livro de Pernambuco – sem atrações internacionais – já com espaço garantido, entre 10 e 17 de setembro deste ano, no Chevrolet Hall. Como as datas não coincidem (a Bienal da Cia de Evento está marcada para outubro), há uma chance de Pernambuco sediar duas Bienais do Livro em 2013.
Em nota, a Andelivros disse que os resultados celebrados pela Cia de Eventos “não são decisões finais, portanto passíveis de revisão pelos Tribunais Superiores, além do que os processos que originaram os agravos da Cia de Eventos e da Andelivros ainda não tiveram suas sentenças prolatadas, motivo pelo qual o mérito das duas demandas ainda não transitou em julgado”.
As primeiras atrações da Bienal da Andelivros devem começar a ser anunciadas a partir da próxima semana. Segundo o presidente da instituição, José Alventino Lima Filho, as vendas de espaços para livreiros e editoras já começaram. “Para nós é fácil fazer uma feira, porque só com nossos associados já se compõe uma boa parte dela: são 30 empresas, que representam mais de 100 editoras. Temos já mais de 60% do espaço garantido”, comenta.
Para ele, a Bienal do Livro da Andelivros, que não tem o “internacional” no nome, é a que foi incluída no calendário oficial do governo do Estado em 2011 – a lei 14.536 fala no termo “Bienal do Livro”. “Vamos trazer autores locais, regionais e nacionais, focar no que é nosso. Já temos um grande evento internacional em Pernambuco, a Fliporto”, diz Alventino
Ele lembrou ainda que a Andelivros não possui fins lucrativos e que o evento será gratuito. Em relação aos vales de compra de livros, distribuídos para professores da rede pública, Alventino diz que já fechou parcerias com vários municípios. Com o governo do Estado o apoio para os docentes ainda está sendo discutido.

* Os livros da vida

Confira os destaques da Revista Siará nº 82

Redação Web | 20h30 | 27.07.2013


REVISTA SIARÁ
Edição de 28/07/2013
CAPA: Com recursos próprios e muita boa vontade, autores publicam obras independentes e esquentam o mercado editorial em Fortaleza. Em muitos casos, eles próprios vendem suas obras 
CULTURA: Restaurantes unem gastronomia e exposições de arte em um só espaço

ENSAIO FOTOGRÁFICO: Imagens performáticas do Coletivo Café com gelo, criado por jovens fotógrafos do Cariri, que participa do FotoRio (Encontro Internacional de Fotografia do Rio de Janeiro)
PERFIL: O artesão Gilmar Martins inova no ofício e lança DVD com a experiência de empreendedor na Associação dos Artesãos de Carqueijo, em Mucambo
E mais as colunas:
Andarilho – Anchieta Dantas Jr.
Impressões – Erilene Firmino
+ Design – Omar de Albuquerque
Martha Medeiros
Mistura Fina – Leo Gondim
Zíper – Márcia Travessoni
A Siará acompanha a edição de domingo  do Diário do Nordeste. Para conferi-la, é só comprar um exemplar do jornal ou acessar o Diário Virtual (disponível para assinantes).

* As armas do futuro

Walter Benjamin e o front espectral de uma guerra de tirar o fôlego
WALTER BENJAMINTRADUÇÃO NÉLIO SCHNEIDER

RESUMO Em texto de 1925, inédito em português, Walter Benjamin fala de armas químicas, como o gás lacrimogêneo, e prevê sua vulgarização. Editado pelo jornal "Vossische Zeitung" sem sua assinatura, o artigo foi catalogado pelo filósofo entre suas obras publicadas e sairá no Brasil no livro "O Capitalismo como Religião", da Boitempo.
As designações anteriores1 serão tão populares na próxima guerra quanto "trincheira", "submarino", "Berta Gorda"2 e "tanque" foram na passada. Para os vocábulos químicos difíceis de pronunciar serão adotadas em poucos dias cômodas abreviações. E essas expressões, promovidas em poucas horas a uma atualidade jamais imaginada, superarão em popularidade o vocabulário de todos os relatórios dos fronts escritos de 1914 a 1918.
Elas dizem respeito a cada pessoa diretamente. A guerra vindoura terá um front espectral. Um front que será deslocado fantasmagoricamente ora para esta, ora para aquela metrópole, para suas ruas, diante da porta de cada uma de suas casas. Ademais, essa guerra, a guerra do gás que vem dos ares, representará um risco literalmente "de tirar o fôlego", em que esse termo assumirá um sentido até agora desconhecido. Porque sua peculiaridade estratégica mais incisiva reside nisto: ser a forma mais pura e radical de guerra ofensiva. Não há defesa eficiente contra os ataques com gás pelo ar. Até mesmo as medidas privadas de proteção, as máscaras antigás, falham na maioria dos casos.
Por conseguinte, o ritmo do conflito bélico vindouro será ditado pela tentativa não só de defender-se mas também de suplantar os terrores provocados pelo inimigo por terrores dez vezes maiores. Em consequência, é irrelevante quando teóricos mais bem intencionados acenam com a perspectiva "humana" do gás lacrimogêneo, e até procuram criar simpatia pela guerra com o gás, comparando-a com a guerra aérea com materiais explosivos.
Outros já têm a visão mais aguçada, quando colocam de antemão e em primeiro plano, como motivo para o ataque com gás (cuja importância crescente já foi ensinada pela guerra passada), o seguinte: a finalidade última das ações da frota aérea deve ser destruir a vontade de resistência inimiga. Alguns poucos "raids" [ataques] devem infundir na população dos centros inimigos um terror inconsciente tal que malogre qualquer apelo à organização da resistência. O terror deve ser algo similar à psicose.
Uma imagem que nada tem das utopias de Wells e Júlio Verne: nas ruas de Berlim, espalha-se sob o belo e radiante céu primaveril um cheiro parecido com o das violetas. Isso dura alguns minutos. Logo em seguida, o ar se tornará sufocante. Quem não lograr escapar da sua esfera de ação nos minutos seguintes não conseguirá mais reconhecer nada, perderá momentaneamente a visão.
E, se ainda não for bem-sucedido na fuga ou se nenhum transporte o recolher, morrerá sufocado. Tudo isso poderá suceder um dia sem que se veja no céu qualquer aeronave nem se perceba o ronco de uma hélice. O céu poderá estar claro e o sol brilhando, mas invisível e inaudível, a uma altitude de 5.000 metros, paira um esquadrão aéreo respingando cloroacetofenona, gás lacrimogêneo, o "mais humano" dos novos recursos que, como se sabe, já teve certa importância nos ataques com gás da última guerra.
Não há meio confiável que permita perceber a presença dos esquadrões entre cinco e seis quilômetros acima da superfície da Terra. Ao menos publicamente não se conhece nenhum. É que a "ouverture" abafada que há anos está sendo executada nos laboratórios químicos e técnicos só chega aos ouvidos do público em forma de dissonâncias isoladas. Esporadicamente fica-se sabendo de coisas, como da invenção de um receptor acústico muito sensível, capaz de registrar o ronco de hélices a grandes distâncias. E alguns meses depois ouve-se falar da invenção de uma aeronave silenciosa.
Alguns fatos que o correspondente de guerra norte-americano William G. Shepherd divulga no "Liberty" sobre a "aplicabilidade" do parque aeronáutico francês na guerra são ilustrativos.
A França possui hoje pelo menos 2.500 aeronaves no serviço ativo à paz; há mais na reserva. A tonelagem total das forças aéreas francesas, dependendo da altitude de voo, comporta entre 600 e 3.000 toneladas. Shepherd põe Londres como alvo. O centro de Londres, sede de todos os institutos vitais do Império Britânico, cobre quatro milhas quadradas inglesas. Para se tornar inabitável por vários meses, essa área exige a aplicação de 120 toneladas de sulfeto de dicloroetila, o gás mostarda.
Considerando que sobre esse território podem voar ao mesmo tempo --dentro da mesma camada atmosférica, naturalmente-- no máximo 250 aviadores, cada um deles carregando pelo menos 250 quilos, e que esse esquadrão despeje uma tonelada por minuto, o coração do império mundial britânico --sempre de acordo com a abordagem de Shepherd-- terá parado de bater após dois minutos.
INÉRCIA O aspecto problemático dessas exposições é que a fantasia humana se recusa a acompanhá-las, e justamente a monstruosidade do destino ameaçador se torna um pretexto para a inércia mental. Sua tentativa de convencimento sempre resulta em que uma guerra dessas ou é de todo "impossível" ou seria de extrema brevidade. Na verdade, essa guerra só terminaria num breve instante se a respectiva base dos esquadrões aeronáuticos fosse conhecida dos combatentes.
Não é esse o caso. Pois essa base de modo algum precisa situar-se em terra. Em algum lugar do oceano, as aeronaves podem alçar voo de navios porta-aviões, que mudam constantemente sua localização sobre as águas.
Com o que se parecem os gases venenosos, cuja aplicação pressupõe a suspensão de todos os movimentos humanos? Conhecemos 17 até agora, dos quais o gás mostarda e a lewisita são os mais importantes.
As máscaras antigases não oferecem proteção contra eles. O gás mostarda corrói a carne e, quando não acarreta diretamente a morte, produz queimaduras cuja cura demanda três meses. Esse gás permanece virulento durante meses em objetos que entraram em contato com ele. Nas regiões que alguma vez foram alvo de um ataque com gás mostarda, meses depois, cada pisada no solo, cada maçaneta de porta e cada faca de pão ainda podem provocar a morte.
O gás mostarda, a exemplo de muitos outros gases venenosos, torna todos os víveres incomestíveis e envenena a água. Os estrategistas imaginam assim a utilização desse recurso: certos distritos taticamente importantes devem ser cercados com barreiras de gás mostarda ou então de difenilamina cloroarsina. Dentro dessas barreiras tudo perece e nada consegue passar por elas. Desse modo, casas, cidades, campos podem ser preparados de tal forma que, durante meses, nenhuma vida animal ou vegetal é capaz de medrar neles. Nem é preciso dizer que, no caso da guerra com gás, cai por terra a diferenciação entre população civil e população combatente e, desse modo, um dos fundamentos mais sólidos do direito dos povos.
A lewisita é um veneno à base de arsênico que penetra imediatamente no sangue, matando de forma irremediável e súbita tudo o que atinge. Durante meses todas as áreas atingidas por ataques com esse gás ficam empestadas de cadáveres. Naturalmente não existe proteção contra ele em tais regiões: porões subterrâneos, que protegem quando muito de bombas explosivas, trazem a morte certa no caso de ataques com gás, porque o gás, pesado, tende para os lugares mais baixos.
Ora, como se sabe, o Comitê Central da Liga das Nações instituiu uma Comissão para o Estudo da Guerra Química e Bacteriológica. Dessa comissão participaram autoridades internacionais. Seu relatório não foi tratado com a devida consideração. A grande política ainda prioriza problemas de armamentismo e desarmamento cuja relevância se desfaz no ar frente aos fatos referentes aos preparativos para a guerra química.
A persistência com que, na execução do Tratado de Versalhes pela Alemanha, foram questionados ridículos requisitos militares não tem só um aspecto desagradável mas sobretudo algo de sumamente perigoso. Porque ela desvia a atenção pública do único problema atual do militarismo internacional.

* Violência e manipulação da Mìdia na visita do Papa

Teatro da Crueldade na Marcha das Vadias é performance política

Por , 28/07/2013 16:30

Foto: Midia NINJA
Foto: Midia NINJA
Como se constrói a opinião pública. O Jornal Nacional mostrou ontem uma  cena em que homens nus quebram a imagem de Nossa Senhora  e crucifixos durante a Marcha das Vadias provocando indignação de muitos.
O Jornal Nacional poderia ter dado destaque para o movimento ‘Católicas pelo Direito de Decidir’, que são pró-aborto ou qualquer outra imagem do carnaval politico que é a Marcha. Mas preferiu destacar uma imagem que demoniza ainda mais um movimento muito diverso, em que todas as pautas da cidade apareceram de forma critica, irônica e festiva.
O ato performático e teatral da destruição de símbolos da igreja faz uma referência direta aos atos de intolerância dos membros das igrejas que cotidianamente invadem e depredam terreiros de candomblé,  quebram imagens,  demonizam e criminalizam homossexuais, matam travestis, criminalizam o aborto e as mulheres lésbicas, entre outras afrontas e violências concretas. 
A lógica do JN é a mesma que transforma os atos de ataque simbólico dos blac block e de muitos outros manifestantes contra signos de monetização da vida e assujeitamento da vida a lógica do capital (seja a placa da Coca-Cola, os símbolos dos Bancos, ou das corporações de midia etc.) em “crime contra o patrimônio” ou “vandalismo”. O teatro e  a performance violenta e didática das Marcha das Vadias, alguns dos atos que ocorrem nas manifestações fazem parte de uma batalha estética e política.
O teatro da crueldade, a pedagogia da violência  são as armas dos que sofrem na pele e lutam por mais direitos e liberdade. Não vamos demonizar nem criminalizar pelo avesso.  Entre os cartazes da Marcha muitos empunhavam a obra de Marcia X dos pênis desenhados com terços e que foi proibida de ser exposta no Rio. É a mesma luta por expressar mundos.
Pessoalmente, acho essa imagem do Papa com a Policia de Choque muito mais violenta simbolicamente do que tudo que vi na Marcha das Vadias, já que estamos reivindicando um Estado laico.

Quebrar santos: liberdade religiosa e outros elefantes brancos

Por , 28/07/2013 16:10
Protesto na Marcha das Vadias, RJ. Foto: Marcelo Tasso
Protesto na Marcha das Vadias, RJ. Foto: Marcelo Tasso
Por Juno, em Incandescência
Linguagem é poder. Não agora no sentido de que palavras ofensivas podem ser usadas como forma de violência, ataque e opressão, mas no sentido de que as formas de poder exercem sua influência em cima da linguagem, e são capazes de, gradativamente, fazê-la caber em moldes que atendem a específicas formas de produzir e reproduzir seu poder. Por exemplo, vamos falar sobre a palavra “democracia”.
O Capital imprime os dicionários
Democracia seria uma sociedade governada pelo povo, isto é, onde o povo exerce o poder. Nós costumamos chamar a nossa sociedade de “democracia”, mas ela não é uma sociedade onde o povo exerce o poder. Pelo contrário, ela é uma sociedade onde o povo está esmagadoramente subordinado a interesses específicos do Capital, do Estado, e de inúmeras instituições que retém poder através de estruturas específicas. Uma delas é a Igreja. Uma democracia precisa, mais do que ter uma definição, produzir certos efeitos. Não basta que vivamos em algo definido como uma democracia, é necessário que enxerguemos que efeitos essa democracia produz. Se existem instituições extremamente poderosas, cujos interesses passam por cima dos interesses da população de forma velada, se existe a necessidade de que as pessoas se mobilizem e incendeiem ônibus e destruam bancos, e juntem-se às dezenas de milhares nas ruas, pra que o poder atenda a suas demandas, então não estamos produzindo os efeitos de uma democracia, onde em tese esses interesses das pessoas seriam atendidos justamente porque elas estão no poder.
A linguagem propõe, portanto, uma determinada definição de democracia que, em si, nos convence de que o povo estar no poder significa a situação atual. O povo estar no poder significa o povo votar. E, portanto, já estamos na situação ideal. Essa concepção é o que podemos descrever como uma concepção ideológica da democracia, em oposição à sua concepção crítica.
Uma determinada ideia de sociedade precisa ser passada às pessoas, e a linguagem tem um papel ideológico fundamental aqui ao, munida da ideia pura de “democracia” (uma sociedade onde o povo manda), descreve a nossa realidade atual como sendo uma “democracia”, e repetidamente nos ensina que vivemos numa “democracia”. Contudo, esse significado (“sociedade onde o povo exerce o poder”) não necessariamente condiz com a realidade material, e ainda assim nós a descrevemos como tal.
Estabelecido que nós cremos que a democracia é algo bom (e é), então descreve-se a situação atual do governo como sendo a democracia. O resultado é a sensação generalizada de que nós vivemos num bom sistema de governo, e que os problemas não são sistemáticos, mas somente precisamos trocar quem ocupa os cargos políticos, que partido está no poder, quantos impostos cobraremos, quanta liberdade econômica daremos, entre outras medidas infinitamente reformistas.
A democracia, capturada desta forma, é colocada sempre em oposição a conceitos como “ditadura”, “totalitarismo” e, conforme bem sucedido seja o sistema em capturar essa palavra, ele conseguirá opor os esforços anticapitalistas à própria ideia de democracia. Nos Estados Unidos, por exemplo, “comunismo” é algo que imediatamente se entende como algo totalitário, privador de liberdade, opressivo, e anti-democrático. Em nome destas noções, os EUA empregam políticas imperialistas pelo mundo, levando a “democracia” para os países, e retirando certos governos para colocar em seu lugar governos fantoches que atendem aos interesses estadunidenses. A justificativa? “Levar a democracia” para o país. Novamente, o conceito serve para justificar atitudes atrozes, que não seriam definidas como “democráticas” se estivéssemos entendendo tudo isto como o poder do povo, pelo povo, para o povo.
Liberdade religiosa pra quem?
A ideia de democracia, portanto, é evocada pelo opressor para justificar e para se utilizar do poder sobre as pessoas às quais ele ensinou uma certa ideia de democracia que é útil para ele, e não para elas. Exatamente o mesmo acontecerá com a liberdade religiosa, um conceito utilizado para oprimir e não para proteger. A ideia de que a liberdade religiosa é algo garantido pelo Estado necessariamente significa que a liberdade religiosa é algo que nos é dado, e não algo que nós temos. Certamente, minha intenção não é dizer que esse direito deveria ser tirado da gente amanhã de manhã, mas que é preciso percebermos como é insatisfatório que o modelo pelo qual temos liberdade religiosa é um modelo estatal, e como talvez fosse mais desejoso olhar para a raiz daquilo que nos tira liberdade religiosa, e tentar garanti-la de si mesma ao invés de partindo de um Estado capitalista, racista, misógino e heterossexista. Em suma, o direito à liberdade religiosa advinda do Estado é um modelo que depende da garantia do direito pelo mesmo poder que o retira. Se a liberdade religiosa é dada, significa que alguém a tem, e que esse alguém nos dá. Isto é, significa que nós não a temos. Em um sistema racista como o nosso, “liberdade religiosa” significa que a polícia invadirá o terreiro de candomblé como bem entender necessário. Em um sistema heterossexista, “liberdade religiosa” significa a bancada evangélica no congresso legislando ativamente contra os direitos das pessoas sexodiversas. Em um sistema patriarcal, “liberdade religiosa” significa uma campanha católica contra os direitos reprodutivos das mulheres financiada pelo Estado. Não existe liberdade religiosa sem laicismo, mas também não existe laicismo sem ruptura. Aparentemente, nós parecemos entender que o que desejamos é um “Estado laico”, um Estado que nos garanta direito para todas as religiões e que não legisle em favor de nenhuma delas.
Bem, é claro que isso é benéfico, e que é melhor do que um Estado vendido aos interesses de religiões e que legisla por elas e para elas, mas o que significa que queiramos meramente formar esta relação, ao invés de perceber radicalmente o que exatamente torna o Estado não-laico? As forças conservadoras que influenciam o processo supostamente democrático do Estado estarão lá se ele ainda for laico? O interesse desse sistema de democracia representativa ainda vai ser atender às demandas de grupos conservadores se o estado for laico? O aborto ainda vai ser tratado como uma questão periférica se o estado for laico? Talvez “laico” seja uma promessa que, de duas uma, se cumprirá com a ruptura com a religião institucionalizada, que detém poder e faz política contra as pessoas, ou com a ruptura do próprio modelo estatal onde a “liberdade” de fazer campanha contra o aborto é uma “liberdade religiosa”, mas a de fazer ritos religiosos de matriz africana não é. Ao falarmos de liberdade religiosa, sempre se fala muito sobre como pessoas sexodiversas malvadas estão calando pobres pastores evangélicos, falamos muito sobre como é feio e ofensivo quebrar estátuas de santos, como aconteceu na Marcha das Vadias do Rio de Janeiro, mas ninguém fala sobre a liberdade religiosa ser o próprio alicerce sobre o qual se constrói a ideia de que alguém pode fazer campanha contra essas mulheres.
Meu ponto não é, portanto, que não devemos ter liberdade religiosa, ou que o Estado não deva garantir este direito por enquanto, mas que precisamos perceber como o discurso da liberdade religiosa será sempre evocado para defender quem está no poder, e para calar quem o poder está oprimindo. Quem articula e quem garante que liberdade religiosa seja uma mulher não poder destruir um símbolo sacro da Igreja Católica é a mesma pessoa que defende e garante que liberdade religiosa é um homem cisgênero e heterossexual poder fazer campanha pelo Brasil contra os direitos reprodutivos das mulheres e das pessoas sexodiversas. Não é no mínimo curioso que liberdade religiosa seja, ao mesmo tempo, a liberdade de oprimir e a liberdade de calar quem está sofrendo a opressão? Não é no mínimo engraçado que, ao mesmo tempo, a liberdade religiosa seja a capacidade da Igreja de se organizar para atacar nossos direitos, e a liberdade dela não ser contestada por nós? É preciso questionar o que essa liberdade religiosa é atualmente, se é assim mesmo que a queremos, e se é do Estado que queremos que ela parta.
A revolução não será agradável
Sinto avisar às pessoas desavisadas, mas a revolução não será bonitinha. Ela não prestará respeitos baseados em falsas equivalências, como a de supor que uma mulher quebrando os símbolos de uma instituição que ativamente a oprime há mais de mil anos tem o mesmo peso dessa opressão, de forma que a reação desta mulher desqualifica a sua luta por direitos. A revolução não será vestida, não será feita de beijos heterossexuais, limpinhos e cisgêneros. A revolução não será pacífica, sem quebrar nenhuma porta de banco ou retrovisor de carro . Ela não será comedida, submissa, com medo da Igreja Católica e dos inúmeros empreendimentos evangélicos do país. A revolução não será composta somente de homens de terno e mulheres submissas ajustando o nó das suas gravatas. E justamente por isso, porque estes atos subversivos são o que criam e avançam uma cultura revolucionária de contestação urgente ao poder, é que a cada passo a frente que dermos na direção de sermos livres, alguém chorará as suas pitangas: revolução sim, mas façamos uma revolução para conservador ver.
A Igreja Católica, e grande parte das igrejas evangélicas, são instituições reacionárias, que ativamente perseguem os direitos de pessoas, ativamente avançam uma agenda conservadora de privação de seus direitos, e que estão interessadas em reter dinheiro e de exercer influência conservadora contra os direitos de mulheres, pessoas sexodiversas e do povo de santo. Estas igrejas são forças opressivas e organizadas contra as minorias, e isso significa que são o inimigo. É preciso ter isso claro e parar de fazer rodeios em volta da “liberdade religiosa”. Formas de organização política que ativamente atacam os direitos de minorias não são meramente uma “religião” a ser protegida, porque opressão não é liberdade. Neste sentido, qualquer tentativa de dizer a uma pessoa pertencente a essas minorias que a sua reação em quebrar os símbolos da igreja é injustificada é uma afirmação leviana e ingênua, que ignora um contexto mundial e milenar de opressão.
É claro que devemos ter liberdade religiosa e que as pessoas devem poder fazer seus ritos com liberdade. Mas até que ponto essa “liberdade religiosa” está sendo utilizada para capitalizar a fé das pessoas, e para fazer campanha contra os direitos do povo? Até que ponto essa falsa liberdade religiosa não está sendo utilizada para defender interesses específicos de grupos específicos? Até que ponto essa falsa liberdade religiosa não é meramente um escudo para calar as contestações contundentes a instituições de poder e opressão?
É preciso fazer rupturas. E isso significa atitudes radicais e claras de contestação, subversão, reação. É preciso quebrar silêncios e afrontar o poder. O fato é que o conservadorismo quer uma marcha de mulheres vestidas, que não se beijem, que não quebrem imagens, que não façam nada. Esta forma de controle e silenciamento está permeada de antifeminismo e, como tal, é uma expressão de misoginia. Assim acontecerá com quaisquer atitudes de protesto dentro de uma sociedade conservadora: qualquer atitude que fuja às expectativas reformistas e liberais será taxada de desnecessária. Existe um esforço conservador para podar certas formas específicas de protesto, e certos alvos específicos de ataque. Por que?
Sinto informar às pessoas desavisadas, mas a Igreja ainda é o inimigo. A Igreja Católica e muitas igrejas evangélicas são instituições de organização política pelo avanço de causas conservadoras e pela acumulação de capital. É passada a hora de parar de tratá-las como instituições neutras de “religião” como se essa fosse sua única atividade, e, desta forma, significa parar de calar-se diante de tudo o que fazem em nome da “liberdade religiosa” que elas têm. Estas igrejas são um esforço organizado contra os direitos das mulheres, das pessoas não-heterossexuais e das pessoas trans*.
Até que ponto podemos dizer que o caráter político das igrejas está desvinculado de seu caráter religioso? Se pudéssemos dizer que está, então seria cabível dizer que a fé professada, o rito religioso, é indiferente, mas que a organização política reacionária não é. Se não — se a política feita pelas igrejas e a fé que elas ensinam é, essencialmente, a mesma coisa, e avança a mesma visão — podemos então dizer que a fé é parte integral da justificação que move as pessoas ao redor deste movimento reacionário , e é propriamente a forma de articulação destes valores conservadores.
Enxergar isto da ótica de quem separa as duas coisas oferece capacidades diplomáticas ótimas para combater a igreja preservando o sentimento democrático-reformista de “liberdade religiosa”, a segunda possibilidade, a de que talvez a religião e a política sejam essencialmente a mesma coisa, oferece a capacidade de nomear o opressor sem receio, e de combater alguém que de fato nos está atacando há muito, muito tempo. Isso significa combater pessoas, indivíduos religiosos? Não. Isso significa contextualizar e fazer firme oposição às igrejas conservadoras, seus líderes, seus eventos, suas imagens.
Existe algo para temer na liberdade religiosa. As mulheres, as pessoas sexodiversas, as pessoas negras têm motivos para temer a liberdade religiosa. Por quê? Não deveria este ser um motivo para que todo mundo se sentisse na proteção de poder professar uma fé? Por que eu tenho medo da liberdade religiosa das outras pessoas? Por que só as religiões das pessoas brancas conseguem gozar da sua liberdade religiosa?  Por que a liberdade religiosa de uma pessoa cristã se estende até ela estar ativamente oprimindo outros grupos, mas o povo de santo continua a ter seus terreiros invadidos? Quem realmente tem liberdade religiosa? Por que a habilidade de uma instituição em distribuir cartilhas que ensinam as pessoas a serem heterossexistas, cissexistas e machistas é tratada como uma expressão de “liberdade”? Até quando o discurso da liberdade religiosa servirá para acobertar uma liberdade que nada tem a ver com religião, e sim com o avanço de uma agenda política heterossexista, transfóbica e misógina?
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Grifos da autora.
Enviada para Combate Racismo Ambiental por Vanessa Rodrigues.